quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Tesouro desprezado

   A partir do momento em que fazemos uma breve retrospectiva historiográfica, nos deparamos com uma das mais célebres figuras da poesia portuguesa: Camões. Prendado na arte de seus versos decassílabos, usou de seu dom para mostrar um pouco do amor a toda humanidade. No entanto, o bom Camões, para sua sorte ou desgraça, jamais imaginou que um dia seus versos inspirados na pureza, seriam substituídos pelos “cartõezinhos virtuais da sociedade contemporânea”.
   Os fatos comprovam. A sociedade caminha para a “calamidade” amorosa sem ao menos se importar com isso. Como dizem: “já não é sabido perder tempo com uma carta ou canção de amor”. O cérebro do coração sequer é usado. A afetividade se tornou algo tão banal que as pessoas são capazes de mandar uma mensagem pronta - no intervalo do almoço para não perderem tempo - a todos seus conhecidos de uma só vez. Até então nada muito grave. Porém, basta atinar para o fato da esperteza (ou leviandade) com que foi cabida à multiplicidade dos destinatários. Mãe, amigos, namorada (o) etc., todos incluídos no mesmo patamar sentimental.
   Amar já não é questão de sentimentalismo, embora haja exceções, porém, na maioria dos casos, demonstrar algum tipo de afeto ao parceiro só se torna conveniente diante os ataques da libido, interesses financeiros etc. Interesses vêm acoplados na maioria dos casos.
A noção de exclusividade romântica já se tornou tão questionável que a confiança vem sendo cada vez menos praticada na vida amorosa. As especulações vão desde perfis falsos nos chats da rede, até casos de detetives envolvidos nas relações amorosas. Resta frisar que isso tende, cada vez mais, a se espalhar pela sociedade.
   O amor que antes era permitido causar “nos corações humanos amizade” hoje é reprimido, mal tratado, tido simplesmente como um sentimento a mais na lista dos mesmos. O dinheiro, os negócios abafaram há muito tempo o prazer das serestas, a troca real dos prazeres cedidos por tal sentimento. Para se ter uma noção mínima do caos basta atinar em que tipo de “arte” as pessoas buscam ouvir de “amor”. Cantores sertanejos do mais baixo escalão proporcionam afago aos ouvidos sedentos por algo medíocre. Pena é que os “dorminhocos da praça” encontram (e vão continuar encontrando) público receptor. Um público, na maior parte, mal sucedido na relação amorosa por tratá-la apenas como estaca de suas relações sociais, não prezando de fato seu real valor que é a busca da felicidade de seu parceiro.
   É lastimável, porém verossímil, que a troca de carinhos tende cada vez mais ao esquecimento por parte da sociedade. Bom seria se a mínima parte do amor ainda existente no mundo despontasse sua face em meio ao caos existente. Infelizmente, a maior parte deste há muito já foi obscurecida pela sombra astuta e sagaz do comércio que visa única e exclusivamente o lucro, custe o que custar. 
O verdadeiro sentido desse amor ainda existente, que ignora toda e qualquer dependência financeira, já foi esquecido.
Resta ainda aos que nele crêem não serem contaminados pela perpetuação dos clones mutagênicos do amor. Não contemos a Camões.

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